sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Livro de Família.

Vó Maria com os tios José e Pedro 
Lendo “Álbum de Família: A imagem de nós mesmos” do colombiano Armando Silva, além de outros artigos que falam sobre a importância da memória e história para compreensão de nós mesmos, leituras essas que tenho feito para produção de textos e materiais de trabalho, ressurgiu em mim um desejo antigo, na verdade algo que me intriga e estimula desde muito tempo.

Ainda criança, olhava os objetos do sítio da avó Maria Laura (também documentada como Maria da Conceição ou Maria de Souza) e que para nós era apenas vó Maria ou vô da Bica (por conta da pequena bica d’água que havia no sítio) e tinha vontade de conhecer a história daquelas coisas e mais tarde colecioná-las, além é claro de conhecer minhas origens maternas. Vó Maria, mulher pequenina, de tez bronzeada do sol e voz tranquila e doce, andava descalça pelo terreiro em frente da casa, modelava e queimava os objetos de barro para uso doméstico, usava açúcar cristal ou pedaços de rapadura para adoçar nosso café, que era colhido, torrado e moído por ela mesma, dava-nos pequenas bolinhas homeopáticas para curar nossas dores e males, aquelas doses açucaradas que adorávamos, vivia sem luz elétrica ou água encanada e mantinha tudo perfeitamente cuidado e limpo, responsável pelas tarefas da casa e cuidados com o pequeno sitio da família, local onde ela sempre nos esperava para os finais de semana.

Por que estou contando isso? Porque há dias atrás quando estive com minha mãe, aproveitei para trazer umas poucas fotos e documentos antigos da família no intuito de criar um livro de família com fotos e histórias narradas por minha avó e reproduzidas pela minha mãe. Na verdade não farei um trabalho extenso e rigoroso de genealogia, quero apenas dar destaque para aquela que sempre foi e será um exemplo de bondade, humildade e sabedoria para nós: a vó Maria.

Agora consigo entender de quem herdei minhas características físicas, vendo a foto da vó Maria percebo de onde vêm meus olhos pequenos e os traços do meu rosto, meus cabelos e minha estatura. Sou parte índia, como fora a minha avó. Hoje até brinco quando falo disso, digo que venho de uma linha ascendente direta de Gengis Khan, mas na verdade me entristece um pouco não conhecer mais sobre minha ancestralidade devido a documentos e fotos perdidas ou com informações diferentes entre si. Conheço o que a oralidade me permite conhecer, histórias ouvidas em encontros de família, relatos fragmentados da nossa origem.

Adoraria poder levantar a trajetória da família, obter mais informações do lado paterno e materno, mas me contento em fazer algo que permita aos meus sobrinhos e as próximas gerações conhecer um pouco mais da nossa história. Para outras perguntas a ciência já pode dar respostas através do rastreamento genético, como o projeto genográfico realizado há algum tempo pela National Geographic e a IBM.

Hoje não tenho comigo nenhum daqueles objetos que faziam parte da casa da minha avó e infelizmente não sei o paradeiro deles, guardo apenas as lembranças daqueles dias na casa da “vó da bica” e do sorriso estampado no rosto dela toda a vez que ela ouvia o barulho da buzina e avistava o carro chegando e nós, eu e meus irmãos, dependurados na porteira do sítio. Bons momentos aqueles, eternizados na minha memória e dos quais hoje sinto uma saudade que dói.

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